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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

"Escrita finta deficiência"


"Adriana Ferreira, com 16 anos e de raízes humildes, dribla assim através das letras no computador a sua paralisia cerebral, ajuda economicamente a família e promove a inclusão.
"Não me imaginava como escritora, foi de repente, na escola apoiaram-me muito. Oxalá o livro sirva de exemplo aos que têm dificuldades idênticas às minhas, pois quando era pequena a aceitação social foi bastante difícil", diz ao JN a aluna de Comunicação, Marketing, Relações Públicas e Publicidade, na Escola Secundária de Barcelos.
O seu livro de estreia fala de um cão rejeitado pelo irmão, que quer sair de casa por recusar viver com o dálmata sem pintas. Foi co-escrito com a docente de ensino especial Eugénia Carvalho, do Agrupamento Braga Oeste, ilustrado pela educadora Anabela Marta e com grafismo da docente de TIC Hélia Lima. A edição de autor de mil unidades foi paga com receitas de uma festa dos escuteiros de Martim, terra da autora.Face à procura foi lançada a segunda edição da obra, que culmina três anos do projecto Superar Barreiras. Aí, os estudantes abordaram por exemplo as barreiras humanas e arquitectónicas, enviando até a lista de falhas à DREN, Câmara e Estradas de Portugal, que agiram de imediato. Percebeu--se ainda que a mochila no chão prejudica o colega invisual, o surdo tem de pedir no bar por escrito ou, na biblioteca, a falta de volumes em braille e prateleiras altas atrapalham invisuais e deficientes motores.
"A comunidade sensibilizou-se e a Adriana, antes incomodadíssima com a diferença, viu que a cadeira de rodas é um detalhe; tem forte auto-estima, talento, boas ideias e desbravou mentalidades e barreiras, sobretudo sociais", anuiu Eugénia Carvalho. "Estou orgulhosa, nunca pensei que a minha filha fosse tão longe", reagiu Esmeralda Cardoso."


in "Jornal de Notícias" 22 de Fevereiro de 2010

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

"A poesia é sobretudo um risco"

"Quintas de Leitura", no Porto, celebram 100ª edição amanhã, quinta-feira. Êxito do ciclo surpreende até o mentor

Ontem
SÉRGIO ALMEIDA

Em oito anos, tornaram-se uma referência incontornável do roteiro cultural portuense, com um público fiel e numeroso, sempre a crescer.
As "Quintas de Leitura", no Teatro do Campo Alegre, chegam amanhã à centésima edição e querem celebrar a data a preceito.
Surgiram em plena ressaca da Porto 2001, quando ainda subsistia a esperança de que a elevada quantidade de eventos da Capital Europeia da Cultura poderia ter continuidade. O desânimo que não tardou a instalar-se entre as hostes culturais da cidade em nada perturbou João Gesta, programador das "Quintas de Leitura" desde a primeira hora, que traçou logo nessa altura os objectivos: criar um ciclo de poesia com entrada paga em que os espectadores teriam acesso ao trabalho de criadores consagrados e emergentes não apenas na poesia, mas também noutras linguagens artísticas, da música, à dança, passando pelo vídeo e fotografia.
"O sucesso surpreendeu-me, quanto mais não fosse porque estamos a falar de regras ambiciosas. Pagar para assistir a espectáculos de poesia não era um hábito enraízado em Portugal", reconhece Gesta, que afirma dever tudo sobre a sua função a Joaquim Castro Caldas, o poeta responsável durante anos pelas célebres noites do Café Pinguim.
"Ciclo de boa saúde"
Primeiro no café-teatro e mais tarde no auditório do Teatro do Campo Alegre, o ciclo não tardou a sedimentar o seu prestígio, graças ao que João Gesta considera ser "uma mescla equilibrada" entre autores já renomados e outros a caminho disso.
"O ciclo continua de boa saúde ao fim deste tempo todo. As bases estão consolidadas, mas é preciso também oferecer às pessoas propostas inusitadas e surpreendentes. A poesia é sobretudo um risco", sintetiza João Gesta.
A frequência da participação de autores como Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares não tem isentado os organizadores de críticas quanto à repetição de fórmulas. João Gesta discorda do reparo, frisando que cada participação de um dos referidos autores equivale a um novo espectáculo, com outros intervenientes e protagonistas.
"Além disso, é o público que exige a sua presença. No dia seguinte à presença do José Luís Peixoto, por exemplo, há pessoas que ligam para o teatro a perguntar quando será a sua próxima vinda", confessa.
Eleger momentos marcantes em 99 edições é tarefa árdua, à qual Gesta, porém, não se furta, destacando o momento em que Rui Reininho simulou atirar para a assistência um recipiente cheio de urina que, afinal, era chá... "Aquilo poderia ter acabado mal", sorri o mentor do evento, patrocinado pela Fundação Ciência e Desenvolvimento, que confessa jamais ter sentido pressões para convidar determinados autores. "No momento em que isso acontecesse, cessava funções", diz.
in Jornal de Notícias, 24 de Fevereiro de 2010

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Morreste-me


Ontem de manhã, numa aula de Literacia , o meu professor pediu para lermos uns textos que trouxemos de casa.
Inicialmente, pensei em ler um poema de Eugénio de Andrade, "Adeus", depois decidi levar uns versos do livro "Sementes de Música para bebés e crianças".
Finalmente, acabei por ler aquilo que não tinha programado. Lembrei-me que tinha um texto do José Luís Peixoto no meu portátil e foi o que li.
Cada vez que leio este texto fico muito emocionada e ontem não foi excepção! Acho que o meu professor deve ter-se apercebido...comentou que gostou muito da minha partilha!
Já deixei aqui um excerto desse texto, em 29 de Julho, mas nunca é tarde para reler.
Espero que apreciem " Morreste-me"


"Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste
mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo
isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o
dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a
sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no
nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas
palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer,
em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho
alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei
ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as
pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para
sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai.
Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei."

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Nobel da Paz


O escritor José Saramago defende que o Nobel da Paz não é prematuro "se o tomarmos como um investimento".
Numa breve declaração que colocou no blog (
http://fundjosesaramago.blogspot.com/) antes de entrar numa cerimónia em Itália, onde se encontra, Saramago comenta que "é possível que comece a dizer-se que o Prémio Nobel da Paz foi prematuro, mas não o é se o tomarmos como um investimento."
O investimento a que o Nobel português da Literatura se refere é depois clarificado: "Graças a ele talvez Obama ganhe ainda maior consciência de quanto o necessitamos".
"Falou-se muito de Barack Obama neste blog, alguns dirão que demasiado", começa por dizer o escritor, para acrescentar: "Quando uma esperança nasce há que saudá-la conforme o seu merecimento, e este parecia não ter limites".
O Prémio Nobel da Paz foi hoje atribuído ao Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, "pelos seus extraordinários esforços para reforçar a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos", designadamente os "esforços de Obama no sentido de um mundo sem armas nucleares", segundo o Comité norueguês.
Como Presidente, Barack Obama "criou um novo clima na política internacional", lê-se na citação da atribuição do prémio.
in Jornal de Notícias

quinta-feira, 8 de outubro de 2009


Por vezes, somos como duas pessoas

que travam conversas no vácuo;

e então a loucura está próxima,

como creio que se aproximaria do homem que conseguisse ver as

coisas simultaneamente através dos véus de dois costumes, de duas

culturas, de dois ambientes.


T. E. Lawrence, (Lawrence of Arabia),
in Os Sete Pilares da Sabedoria

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Give me the words!


A propósito dos post que o Daniel deixou no seu blog



"O silêncio só é silêncio quando não somos capazes de escutar com o coração"


Eduardo Sá

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Morreste-me

(...) Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste
mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo
isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o
dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a
sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no
nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas
palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer,
em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho
alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei
ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as
pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para
sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai.
Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.



in Morreste-me
de José Luís Peixoto

quinta-feira, 9 de julho de 2009

...o poema não se escreve




(...)o poema não se escreve com letras, escreve-se


com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e


incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,


a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo


para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por


mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares


onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,


o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me


olhas, o poema é o teu rosto, eu,eu não sei escrever a


palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.




in A criança em ruínas


de José Luís Peixoto

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A Poesia na Infância

Há no espírito das crianças tendências poéticas e uma verdadeira necessidade de ideal, que convém auxiliar e satisfazer, como elementos preciosos para a educação. (...)
A poesia é o ideal percebido instintivamente.
É por tais motivos que a poesia costitui o instrumento por excelência acomodado para desenvolver, e até evocar, na alma infantil, (...) (o) sentimento do bem e do belo.

in Tesouro Poético da Infância
de Antero de Quental

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Carta de uma vida inacabada



Queridos pais
Espero que quando lerem isto já não esteja cá para vos fazer sofrer mais.(...)
Então, eu pensei que agora era a minha vez de ir também para esse lugar sem sofrimento. Depois de ter caído da varanda do quarto andar, onde mora a Petra, e fiquei assim sem sentir as pernas e a sentir mal um dos braços, nesta cadeira que me tem de levar para todo o lado, fiquei realmente esquisita sempre aqui sentada. (...)
Acho que também estou a ficar tolinha, até porque na escola, em vez de prestar atenção, estou a fazer desenhos de meninas com asas que voam e voam pelos meus cadernos. Não sei se sou muito ou pouco deficiente, mas cada vez me convenço que sou muito, se não fosse assim, não veria tanta gente a perguntar o que vai ser de mim agora. É engraçado, mas o menino atrasado lá da escola um dia destes viu-me a chorar e veio dar-me um abraço sem dizer nada.
Quando chegar ao pé do mano, vou contar-lhe tantas coisas, falar-lhes de vocês e dos meus amigos. Ele vai gostar de saber e até vamos brincar muito porque, se esse tal lugar não tem sofrimento, mesmo que sejamos esquisitos ou tolinhos isso não tem importância.

Carta escrita por uma menina de 11 anos encontrada morta no seu quarto aos seus pais
in Jornal Académico UM 99 Ano V série III

sábado, 11 de abril de 2009

Isto do Amor!


Quando é que isto começou?

Isto, o quê?

Isto.

O amor?

Talvez.

O amor?

Sim, pode ser isso.

Quando é que o amor começou?

Começou antes de ter começado.

E depois?

E depois não acabou quando devia acabar. Durou mais tempo. O coração bate mais tempo. Não há maneira de parar o coração.

E então?

E então é assim. Não há muito que se possa fazer. Pode-se esperar.

Pode-se esperar?

Sim, pode-se esperar. Sem saber o que se espera, por exemplo.

Isso é ainda pior.

É.

E então?

O que é que tu queres saber?

Gostava de saber.

Eu também gostava de saber. Mas o que se sabe é muito pouco. Quase nada.


in Muito meu amor

de Pedro Paixão

segunda-feira, 2 de março de 2009

Freud já não mora aqui


"É que, segundo Freud, as crianças começavam a ser "polimorfos perversos" desde muito pequenas. Os rapazinhos, aparentemente, não sabiam se haviam de fugir com a mãe antes ou depois de terem morto o pai; se haviam de consumar o incesto com a mãe no seu quarto de brinquedos ou no quarto de dormir dos progenitores. Por um lado, o seu pequeno quarto era mais íntimo e podiam brincar com os carrinhos enquanto faziam amor, mas a caminha era demasiado estreita para certas efusões. Por outro lado, no quarto dos pais havia aquela cama enorme que era muito mais cómoda. Sobretudo se o miúdo já tivesse lido o kamasutra.
Hoje em dia, estas personagens do triângulo edipiano, a mãe e o pai, passaram para segundo plano. Primeiro está ele, o ursinho, o tigresinho, o peluche."


in O mundo imaginário das crianças
de Tilde Giani Gallino